Destaque

esperânsias

estudos em versos para uma ansiedade

1
quando sinto
por dentro
algo que vai
morrer

e me diz
espera

acolho
o que há
de medo

e de morte

(des)espero

2
quando sinto
por dentro
que algo vai
renascer

e me diz
espera

encolho
o que há
de morte

medoespero

3
nem toda
espera
precisa ser
ansiedade

nem toda
ansiedade
precisa ser
desespero

4
o remédio
que não há

para minha
fome de tempo

para meu
peito ardendo

para meu
chão de sonho

5
bebo
esperânsias
de um gole só

não há
rótulos na garrafa

não há
nada que informe
nada que provoque

nada que esperar

e depois
do terceiro ou quarto
copo (fragmento)

náuseas

6
um desejo que
não me comporta
nem me conforta
me faz
abrir o peito
rasgar o sonho
engolir o tempo
sem mastigar
sem sentir na boca
as horas
embora quase
engasgando
com os ponteiros

um desejo que
choro baixinho
pra ninguém ouvir

nem mesmo eu

um desejo
de ser livre

de expectativas

que não seja o fim

sinto falta das palavras

parece que emperrou
o botão do “pause”
ou
sem querer
apertei o “stop”

quando foi que
deixei de sentir?

sinto falta das palavras
que antes
eu derramava

a cachoeira secou

restou só
um filete de verso
que escrevo agora
com medo de que
se perca
de mim

sinto falta das palavras

mal sei como
conduzir esse poema
para o fim
com medo de que ele
seja o fim da voz
que sou

sinto falta das palavras
e de quem sou
quando escrevo

e quando não escrevo

sinto falta de
quem sou

1/3 dos ansiosos rezam

desenho
dobro
recorto
colo

ocupo os pensamentos
em seguir uma linha
que não é reta

quando a curva se apresenta
vou me curvando
junto com a tesoura
que na embalagem dizia
ser de precisão

mas desenho
dobro
recorto
colo
justamente
pela imprecisão
do que sinto

um misto de
medo e desejo

uma falta de coragem
que move a mão
que move a tesoura
que segue
a curva

e não pensa

ocupo o pensamento
pra desviar a ansiedade
e sou tomada
pela ânsia de fazer
mais e mais

desenho
dobro
recorto
colo

fico repetindo
repetindo
repetindo

rezando o terço
dos ansiosos que fazem
pra sentir menos
ansiedade

às vezes
parece um fazer
ilegítimo

mas no fim
acontece
o desenho
a curva
a dobra
a reza
e um pouco
de esquecer
a dor

aflorar

I
nunca fui de ver
flor no caminho

queria só
acertar o passo
saber a direção

era sempre
menos céu
e mais chão


II
levantei
o olhar

agora
tem sempre
flor no meu
caminhar


III
agora
por onde vou

procuro árvores
e suas cores

só depois
olho o chão
e está lá

a natureza
em sua generosidade
oferecendo
flores


IV
tem quem
não enxergue
o presente

gente que só vê
o passado
das flores

mas recolho
esse presente
até encher as
mãos

carrego
passado
presente

nada se perde

e uma espécie
de futuro


V
nada se cria

preencho livros
com a emoção
de vislumbrar
nesse presente
que estava ali
– caído –
inteiro
particípio passado

uma flor de futuro


VI
nada se perde
nada se cria
tudo se transforma

em poesia

manual de desconstruções

ser mãe
não é uma regra
não é uma régua
para você medir
a mulher

nem toda mulher 
quer cumprir 
essa meta
bater tabela
nesse clichê

tem quem é
por opção
e ama

e quem é porque 
é o que resta
e… 

mas também tem 
quem deixe
pra mais tarde
porque traçou
outro percurso

quem deixe
pra outra vida
porque nessa 
veio sem esse 
desejo-recurso

quem quer mas 
não pode gerar
e acolhe adotar
como opção

quem teve a chance
mas escolheu o 
não 

esqueça a régua
não tem regra
cada mulher
tem sua própria
métrica

poema difícil

fáceis

difícil é
se manter viva

ser mulher
na guerra

viver
a guerra
de todos os dias

sem ter medo
sem ter respeito
sem ter voz

fáceis

difícil é
ser livre
e se manter viva

não decidir
sobre o corpo
que habita
o destino
do próprio coração
se pode trabalhar
ou sentir tesão

fáceis

porque sangrar
parir cuidar
nutrir
nem entraram
nesta conta

fáceis

difícil é
precisar escrever
esse poema