EXERCÍCIOS PARA SUJAR A PÁGINA – V

Eu deliro
a todo instante.
Estou sempre
Com estrelas
No olhar
E com os pés
No céu.

Na página,
Não é diferente.
O que podia
Ser chão
Vira mar
E eu me viro
Pra navegar,
Ou, quando sereia,
Para o mergulho
Em profundidade.

Na página,
O branco vira abismo
E eu, ali, na beira,
Nem penso:
Um segundo
De delírio
E me atiro.

Mar ou abismo,
Tudo tenho profundidades.
Mas o chão da página,
Esse que sujo agora,
Não vejo.
Sou.

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EXERCÍCIOS PARA SUJAR A PÁGINA – IV

O branco da página
Mal sabe que,
Por dentro,
Me habita um vermelho,
A cor do meu desejo,
Que agora transborda
E suja a página.

O branco da página
Não desconfia
Mas eu queimo
Por completo
Quando lembro
Do seu beijo quente
E das suas mãos quentes
Percorrendo meu corpo.

Vermelho-fogo.

O branco da página
Clama pelos seus dedos
A escrever desejo
Pelo meu corpo.

Vermelho,
Meu corpo-página
Pulsa pra te receber,
Sentindo meu corpo
Se contorcer,
Esperando o seu
Entranhado no meu.

Te espero, homem,
Pra vivermos esse desejo,
Esse vermelho-fogo
Que queimou
A página.

EXERCÍCIOS PARA SUJAR A PÁGINA – I

O branco da página
E toda a sua possibilidade
Me comove.

O branco da página
Me move
Pelo incômodo
Que me causa.

O branco da página
É um convite ao mergulho:
Um oceano branco,
Um ecossistema que se revela
Enquanto risco a página
E arrisco tudo.

O branco da página
E sua multiplicidade de sentidos
Rompe a barreira do som
E invade meus ouvidos
Num zunido capaz
De me tirar o sono
E paz.

É preciso sujar a página.
Libertar-se desse incômodo,
Atirar-se nesse abismo.
Como quem mata
Um mosquito.
Esmaga-lo com as mãos.

E só sossegar
Quando,
Na página em branco,
Restarem apenas os restos
do branco bicho.

E sangue.

REVOLUÇÃO

Vou dar a volta
Nesse mundo
Que eu sou
E vou me ver
Girar em
Minha órbita
E tirar tudo
Do lugar.

Vou me revolucionar.
Vou me rebelar
Contra meus
Antigos padrões
E me libertar
De minhas
Prisões de ser.

Vou ser
Esse fenômeno astral,
Esse carnaval.
Vou ser festa
Pra viver a emoção
De sentir queimar,
No peito,
a vida.

No colo do tempo
De dentro,
Sem amarras,
Vou ser só asas
Num voo-revolução
E tem gente que
Nem vai perceber…

Vou ser
Sem pressa.
E depois de
Girar meu mundo
E chegar
do mais fundo de mim,
Vou dar outra
Volta…

Eterna revolução.
Vou ser sem fim.