RUÍDOS

me invadem
sem permissão

o sofrimento da rua
de paralelepípedo

a boca de uma garagem
se abrindo
cuspindo
um carro

um latido
de um cão passante
por alguma gente

bora! bora! bora!
o tempo corrente

gritos choros
latidos outros

a cigarra e o seu
som-repente

enquantos
do dia que parte

da noite que começa
cheia de pressa

e instala
na janela aberta
do meu verso

ruídos

poema vacilante

é vacilar
e o desânimo se instala
em todas as minhas células
escapole pelos poros
e vai deixando marcas
por onde passo
seja chão
ou palavras

é vacilar
o teto desaba
porque as paredes
já vacilaram faz tempo
e o chão que piso
pode ser apenas
uma ilusão

é vacilar
e esse poema não sai
da cabeça nem do papel
vai ser só o desânimo
ocupando as linhas
enquanto por dentro
eu podia me ocupar
com um pouco mais
de vida

e vacilei

NÃO CABE

o silêncio não cabe
no meu dia

uma britadeira
levanta poeira
mexe
com os escombros
do que foi
uma parede
uma piscina
um mar
mexe
com tudo que
dentro
foi água

o silêncio não cabe
no meu dia

uma britadeira
reverbera
no redemoinho
do ouvido
que tenta equilibrar
todas as águas
entranhas
em revolução

o silêncio não cabe
no meu dia

não me cabe
esse dia

esse dia
não