POEMA DESACOSTUMADO

Um dia estranhamente calmo
E a vida segue acontecendo
Com mais silêncios
E menos trânsito
do que o de costume.

Um dia estranhamente calmo
E a vida segue acontecendo
Com os olhos mais marejados
E o coração mais acelerado
Do que o de costume.

Um dia estranhamente calmo.
A vida parece acontecer fora.
Dentro, a vida parou:
A calma virou agonia
E o que era lágrima
Virou poesia.

Um dia estranhamente calmo.
A vida não parou,
Só o medo que cresceu.

Dá flor do medo
Esse poema nasceu.

POEMA-SOL

Amanheço
Precisando de centro
E busco a página
Em branco
Na intenção
De também
Esvaziar
Meus pensamentos.

Deixo que
O branco da página
Me invada
E, enquanto invado
O seu branco
Com essas palavras,
Consigo deter,
Por apenas
Este momento,
O turbilhão de coisas
Que me invade.

Enquanto escrevo,
Descarrego as angústias,
Alivio o peito,
O seu chiado,
E batimento acelerado
Transfiro tudo
pra ponta dos dedos…
lanço meus versos-dados
no papel,
arrisco um poema
e, voilà!,
concentro,
me centro
por dentro
e me sou.

Amanheço.
Nasce em mim
Poema-sol.

VOAMAR – II

OUÇA AQUI!

o mar voou
e molhou tudo
por onde passou…

choveu mar
na minha
praia…

choveu
mar
mas minha maré
não secou…

eu
fiquei
foi com a boca
cheia d’água,
vazando
a maré
entre as pernas…

ah,
esse mar
que voa
e me deixa
molhada…

vem, mar,
me fazer chover
e sorver
minhas águas
até minha maré
secar
e a sua encher
pra você
de novo voar
e chover
e me molhar
e a gente
recomeçar
essa dança
da chuva…

O VÔO

meio homem
meio pássaro
me lanço
no espaço
num vôo
inexato
em direção
ao que
em mim
é vazio
e preencho
de coragem
o meu enredo
e vou
sem medo
e me desafio.

os abismos
tecem sua teia
me atraem
para suas (minhas)
beiras
me convocam
para o salto
e eu
fecho os olhos
abro os braços
desligo
a bússola da razão
e quando vejo
lá estou eu
em pleno
vôo
meio pássaro
meio homem.

Casa-intuição.
Asas.

DO ASSOMBRO – II

O amor me assombra.
Ele se mostra sem medo:
Me dá a mão
E me leva pelos caminhos.

Ele me assombra.
Com ele, meus eus-medo
Se tornam infundados…
E não tinha ainda
Tido a sensação
De amar sem medo.

Ele me assombra.
Ele me ajuda a resgatar
Os medos no meu mar,
Depois cuidadosamente
Os retira da rede
Ou do anzol
E liberta-os.
Liberta-me.

Ele, de tão assombroso,
Vai se tornando natural
E de amar esse amor
Que é puro assombro,
Começo a ter cais
Onde era caos
E aporto meu barco
E banco viver
Esse amor
Que me ama
E me assombra.

REPOEMAMANHECIDO

OUÇA AQUI!

Amanheço
Precisando de silêncio.
Começo de novo o poema
Porque agora me ocorreu
Que, logo cedo,
Dentro eu já sou
Barulho de multidão…

Então amanheço
Precisando de silêncio…
Um que me ajude
A apaziguar minhas vozes,
Um que fale mais alto
E me cale.

Amanheço
Precisando de silêncio
Porque, logo cedo,
Eu já tenho
Tantas coisas amanhecidas
Por dentro,
Gritando por atenção,
Que, sem silêncio,
Como poder me ouvir?

Amanheço
Precisando de silêncio,
E mais que necessidade,
Esse silêncio
É uma imposição
Da minha alma inquieta,
Em carne viva,
Ferida sempre aberta.

Um silêncio band-aid,
Que estanque
momentaneamente
A verborragia da alma
E que me contenha
Para que eu possa
Me sentir viva
E amanhecida.