#31 CASO NÃO CAIBA A CRASE

OUÇAQUI!

Dizem que quem casa
Quer casa.
Mas quem é casa
Se casa?
Caso a casa não case,
Caso não caiba a crase,
Que fase…
Quem é de casa, sabe…
Quem é casa
Não cabe em casa.
Quem é casa
Se cabe.

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#30 POEMABRIGO

PARA OUVIR, CLIQUE AQUI!

Sempre fui esconderijo,
Medo constante
Do que eu iria encontrar.

Mas, à medida que me escondia,
Fui encontrando meu medo
E vendo o que, de fato, eu temia.

E fui tendo medo
De ter medo de encontrar
Meu medo em cada esquina.
E quanto mais eu me escondia,
Mais ele me achava.

Então escancarei o esconderijo.
Ele virou abrigo.
Pra mim e pro meu medo.

Ficamos amigos.

#29 POEMA EM CASA

OUÇA AQUI.

Eu mudei.
Na verdade, me mudei.
Eu mudei de casa.

Mudei a casa
De lugar.
Eu mudei,
Virei lugar.

Saí do lugar.
Me mudei,
Mas quase tudo
Está como antes.
Menos o olhar.
Mudei a referência.
Sou meu lugar,
Minha vista da janela.
Sou minha janela,
Minha porta,
Minha cama desfeita,
Meus pratos sujos na pia,
Aquela roupa entocada no armário
Quando dá preguiça de lavar.

Saí do meu lugar
Pra encontrar lugar
Que me coubesse.
E me coube.

E mudei tudo de lugar
Sem me deslocar.
Eu mudei de casa.
E virei casa.

Eu sempre soube
Que esse dia
Ia chegar.

#28 VERSO-AGONIA

Escrevo poema quando sinto
Que é preciso escrever.
Não importa o dia.

Abro a porta do inesperado
Que me habita
E deixo que quem sou
Transborde em verso.

Não importa
O tempo que eu gaste.
Horas úteis do meu dia
São investidas em poesia.

Vão dizer que esse tempo
É perdido,
Que poema não paga
Boleto.

E, de fato, não paga.
Nem precisa.

Não me venha impor
A sua regra.
Cada um mede
A utilidade do seu dia
Conforme a própria régua.

Sou desmedida poética.
Não me exijo rima
Nem métrica.
Por isso, minha regra
É quebrar a régua
E desmedir o dia…

Escrevo o que sinto
E sinto que sou
O que escrevo.
Verso-agonia.

#umpoemapordia

#26 POEMA VENDO MELHOR

OUÇA AQUI!

Antes era mais fácil ver a chuva,
Ainda que ela fosse tímida.
Era olhar e, se chovia,
Ia ver o céu se derramar.

Agora a chuva se esconde dos meus olhos.
A vista da janela fica nublada,
“está chovendo?”,
Penso, apertando os olhos,
Tentando focar,
Desnublar a visão.

E enquanto escrevo
Entendo que sempre
Tive essa visão nublada
E que só com palavras
Ajustava meu foco.

Meu Deus!
Eu nunca soube…
Mas sempre usei óculos!

#umpoemapordia

#25 POEMA SEM DIA

Um dia sem um poema
Não é exatamente um dia perdido.
Às vezes, a poesia acontece
E a gente não teve jeito
De escrever na hora…
Tipo aquele instante que ele me olhou
E nós estávamos no meio de um filme,
Dentro do cinema…
E vi transbordar desse olhar o amor…
E vi passar um filme na cabeça
De tudo que vivemos
Até desembocar naquele exato instante.

Meu amor me fez poesia.
Não perdi o dia.

#umpoemapordia

#24 POEMA FICANDO VELHO

A idade me invade os olhos,
Me cega para as letras
Mas me alerta para o mais importante,
Que os olhos,
De qualquer sorte,
Não poderiam ver…
A idade me invade os olhos
E vou me vendo
Com olhos mais generosos
E vou gostando
De ver a idade
Me invadir a vista
E me dar nova pista
Pra ser.
A idade me invade os olhos
E me exige óculos.
Resistir?
Pra quê?!

#23 TECNOLODIA

A noite não te reinicia.
O dia liga,
Mas o seu processador
ainda não está pronto.
Os programas começam a rodar.
As coisas se imprimem
Em sua rotina diária.
Você trava.

Era preciso ter se atualizado
Durante a noite…

Mas tem dias que você roda
mais devagar que o normal
E o seu sistema operacional
Não teve tempo de se atualizar…
Então amanhece
E você ainda está lá,
Travado no ontem,
Sem sair do lugar…

A rotina está toda
No ritmo habitual,
Mas você “deu pau” …
Será que pega mal
Desligar-se até
A próxima manhã?
Hoje está assim, chovendo…

Mas a rotina não quer saber.
Segue doendo seu curso
E lhe exige que melhore
O seu discurso.
Insiste que você desperte
E problema seu que já é tarde…

Destrave!
Ligue seu sistema,
Sintonize sua agenda
Pra fazer valer
Seu tecnolodia.

Quem sabe, essa noite,
Você se reinicia.

#umpoemapordia

#22 SOBRE REPARTIÇÕES

OU-ÇA A-QUI!

Reparto as palavras
E sinto como se
O sentido delas
Se abrisse em mim.

Reparto a palavra
Para colocar ar
Dentro dela,
Para ter calma,
Para correr menos,
Para ter tempo
De mais palavras.

Re-parto.
Parto de novo
Do novo começo.
Recomeço.

Re-par-to.
E nesse ato
De dividir,
Percebo que
Que tudo tem
Sua própria
Repartição.

O tempo se reparte inteiro…
O poema se divide em versos,
Às vezes, estrofes,
E tem quem conte suas sílabas
Pra caber em sua métrica,
A mais cruel medida….

Há quem divida a vida em setores,
Uma vida-armário,
Cheia de gavetas-compartimentos…

Há quem separe
Um tempo pra cada coisa…
Uma coisa pra cada lugar…
Um lugar pra cada pessoa…
E tudo vai se repetindo,
Pois quando se vai repartindo
Não se deixa de se repetir…

Tudo tem sua própria
Repetição.
TU-DO.